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09/08/2018

“Com estrutura limitada, Piracicaba terá um infarto”, alerta urbanista sobre número crescente de veículos circulantes na cidade

Por Claudia Assencio e Rafael Bitencourt/Observatório Cidadão

“Precisamos diminuir o número de carros em Piracicaba. A estrutura construída no município é limitada. Ao aumentar o número de veículos, as artérias param e cidade tem um infarto”. A metáfora para diagnosticar a necessidade de se rever políticas de mobilidade é do arquiteto e urbanista Moacyr Corsi Júnior, que também aponta o estímulo ao uso do transporte coletivo e de bicicletas, por exemplo, como possíveis alternativas para a questão, mas não as únicas.

 Corsi Júnior defende ações menos centralizadas no uso de automóveis. “É preciso uma cidade mais ‘caminhável’, em que as todas as pessoas possam se locomover de forma mais fluida, inclusive para os pedestres, com calçadas bem feitas, com rampas para pessoas com deficiência, por exemplo, que seja agradável”, detalha.

 Moacyr falando ao microfone na Câmara dos Vereadores

Urbanista Moacyr Corsi Júnior afirma que é preciso diminuir carros em Piracicaba

Uma análise feita pelo Observatório Cidadão de Piracicaba, que considerou dados do Departamento de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) e informações divulgadas pela Prefeitura, demonstra que a cidade segue na contramão do que é indicado pelo especialista. Até março de 2018, o município soma 307 mil veículos em circulação, entre carros, motocicletas, utilitários, caminhões e ônibus. Em 2017, a cidade recebeu cerca de 7 mil novos veículos de todos os tipos, segundo o levantamento, ultrapassando a marca de 297,3 mil unidades no período.

 INDIVIDUAL X COLETIVO

 Se considerado apenas o número de carros, a cidade apresentou constante aumento na frota entre 2001 e 2017. Se, naquele ano, havia 85 mil carros em circulação na cidade, o número subiu para 179 mil no fim do levantamento, uma alta de 110% nesse intervalo de tempo. Sobre a frota de ônibus, o movimento é oposto ao de automóveis.

 O estudo do Observatório apontou queda de quase 8,5% no número de coletivos operantes na cidade nos últimos cinco anos. Esse movimento coincide com a redução do número de passageiros transportados pelo sistema coletivo e também com as altas da tarifa de ônibus. Em média, o número mensal de usuários tem diminuído. Foram 2,3 milhões em 2017, uma queda frente aos 2,8 milhões registrados em 2012.

 A Prefeitura de Piracicaba explica que a frota de veículos particulares cresceu muito nos últimos anos em todo o país, o que não estaria atrelado a questões referentes ao transporte coletivo. “Não há relação entre o valor da tarifa e quantidade de ônibus em circulação”, afirma a administração municipal em questionamento feito pelo Observatório Cidadão.

 DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE ÔNIBUS

 O levantamento do Observatório Cidadão apontou diminuição do número de ônibus operantes em Piracicaba em cinco anos. Eram 257 em 2012 e, após ligeiro aumento, passando para 260 em 2013, a frota de coletivos do transporte público registrou quedas constantes. Se em 2014 eram 250 ônibus operantes, o número passou para 247 no ano seguinte, atingindo 244 em 2017, até alcançar a marca de 238 ônibus operantes em 2018.

 Mulher subindo no ônibus

Estudo aponta para redução de ônibus operantes em Piracicaba 

Questionada pelo Observatório Cidadão, a Prefeitura de Piracicaba atribuiu a baixa na frota de ônibus à crise econômica. “Há uma redução gradativa de passageiros do transporte coletivo ano a ano. Praticamente todos os municípios brasileiros tiveram queda acentuada no número de passageiros transportados com maior intensidade a partir do ano de 2014, o que se deve ao desemprego gerado pela grave crise financeira que atingiu nosso país nos últimos anos”, declarou a administração municipal.

 Para o urbanista Corsi Júnior, a diminuição da frota precisa ser avaliada. “Pode ser que consolidem linhas e isso as tornem mais longas. O que deve ser analisado, entretanto, é a cobertura do sistema”, avaliou o especialista. “Mas é preciso implantar melhorias, não basta fazer corredor. Com ônibus de qualidade, equipado com rede wi-fi, ar-condicionado, faz com que as pessoas tenham condições melhores do que ao utilizar automóveis mais simples, estimulando as pessoas a usarem o ônibus”, ressalta.

 O estudante de pós-graduação em Ecologia Aplicada da Universidade de São Paulo (USP), André Barone, critica a escassez de opções. “Há poucas alternativas de transporte na cidade. E o transporte público, que se resume a ônibus, parece ser muito escasso. As ruas são dominadas por carros”, opina.

Prédio da administração municipal pixado com os dizeres  

Prédio da administração municipal é pixado com dizeres de protesto após aumento da tarifa de ônibus 

ALTA NAS TARIFAS

 Ao mesmo tempo em que ocorre a diminuição de ônibus operantes, verifica-se o aumento do valor da tarifa comum, que saiu de R$ 2,95 em 2014 para R$ 3,95 em 2017. Houve uma variação negativa no início da década. Se em 2012, a passagem custava R$ 3,40, o preço passou para R$ 3,00 em 2013 e, em 2014, a R$ 2,95. As quedas das tarifas podem ser atribuídas às manifestações de junho de 2013, que lutavam contra as altas nos preços do transporte público.

 Em julho 2018, a Prefeitura subiu o preço da passagem e, agora, quem compra o bilhete no ato do embarque, paga R$ 4,40. Para o ajudante de criação e montagem de móveis, Leonardo Ramos, o valor atual da tarifa é exorbitante. “O preço, hoje, é o mesmo da gasolina. O que é um absurdo se pensarmos que muitos ônibus não têm os recursos que deveriam ter. Alguns, não têm ventilação, por exemplo. Já vi casos em que o elevador para cadeirante não funcionava ou que o usuário só conseguiu subir no ônibus porque contou com ajuda de outros passageiros. É complicado pagar tudo isso pela passagem e não termos o recurso que deveríamos ter”, observa.

 A Prefeitura de Piracicaba informou à reportagem que as tarifas seguem as variações dos preços de combustíveis, lubrificantes, e outros insumos próprios do serviço, como mão de obra, entre outros. “A Prefeitura está sempre em busca da tarifa mais baixa para a população”, declarou em nota oficial.

 As constantes altas no valor das passagens têm causado prejuízos a quem depende do transporte público na cidade. É o que aconteceu com o jovem Ricardo Miranda, de 18 anos. “A tarifa está cara mesmo. Às vezes, as pessoas acabam nem tendo o suficiente para o passe. Eu mesmo já tive, por várias vezes, que faltar no serviço por conta disso”, lamenta.

 A dificuldade para arcar com o custo do transporte gerou transtornos no período em que ele cursava o ensino médio, em 2017. Ele mora na periferia de Piracicaba e estudava em uma escola pública da região central. “Teve uma vez que faltei à escola porque não tinha dinheiro para pagar o passe de ônibus e era dia de prova. Mas, felizmente a professora me entendeu e pude fazer o exame em outra data”, recorda Miranda.

LIMITAÇÕES PARA OS CARROS

 Segundo Corsi Júnior, a cidade tem que ser pensada para que os carros tenham limitações, como, por exemplo, proibir o trânsito de automóveis em alguns trechos da região central. “Algumas pessoas pensam, erroneamente, que isso vai limitar a quantidade de freqüentadores no local. A exemplo de muitas partes do mundo, as pessoas buscam lugares que tenham uma qualidade urbanística diferente, como um calçadão” diz o arquiteto, dando o exemplo de Curitiba, cidade onde foi criado um sistema integrado de transporte público.

 Rua Benjamin Constant, no Centro lotada de carros, com trânsito.

Para urbanista, carros precisam ter limitações na cidade

“Esse sistema virou referência no mundo, em que havia corredores de ônibus que funcionavam como se fosse um metrô. Eles tinham poucas paradas, eram rápidos e tinha uma estação para facilitar o acesso ao ônibus, você subia numa plataforma preparada, de vidro e acrílico, inclusive com plataforma para cadeirantes, o que facilita o transbordo e aumenta muito a qualidade do transporte público”, diz. Para o arquiteto e urbanista, trata-se de um sistema que foi replicado em diferentes cidades. “Não são todos os lugares em que você tem condições de colocar uma estação e construir um corredor, mas em Piracicaba, temos grandes avenidas que cortam a cidade, então não seria um problema fazer algo semelhante aqui”, opina.

CICLISTAS E PEDESTRES

 Entre os anos de 2012 e 2016, Piracicaba teve um aumento de apenas 1,2 quilômetro de ciclovias e ciclofaixas. Pouco, principalmente quando considerando que muitos utilizam essa forma de transporte para ir ao trabalho. É o que demonstrou a tese de doutorado, de autoria de Mirian Rother, intitulada “A mobilidade por bicicletas em Piracicaba (SP) - Aspectos culturais, ambientais e urbanísticos”, defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), após quatro anos de pesquisas (2012-2016).

O estudo entrevistou 60 ciclistas e identificou que 47% deles são empregados, 5% empresários, 8% autônomos, 32% estudantes e 8% estavam sem emprego. O que desmonta a percepção de que a maioria das pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte ou são estudantes, ou estão em momento de lazer.

 Quanto ao gênero, 85% são homens e 15% mulheres. No que se refere à idade, a maior concentração está entre 20 a 29 anos (40%), seguido pela faixa entre 10 a 19 anos (23%). Pessoas entre 30 a 39 anos somam 10%, mesma porcentagem da faixa entre 40 a 49 anos e entre 50 a 59 anos (10%). São 7% entre 60 a 69 anos.

Bibicletário com bicicletas presas na ESALQ/USP 

Mobilidade por bicicletas é tema de tese de doutorado defendida na ESALQ/USP

“É interessante dizer que, o que mais incomoda o ciclista em Piracicaba não é o relevo da cidade. Todo mundo diz que não se faz ciclovia aqui porque tem muita subida e muita descida. Mas o que mais atrapalha é o calor e a falta de arborização”, diz Mirian, chamando atenção à outras questões fundamentais, que estão diretamente ligadas: a preservação do meio ambiente e a saúde das pessoas. Corsi Júnior ressalta ainda a importância de investir em melhorias das calçadas. “Seria interessante criarmos uma cidade em que as pessoas possam caminhar de uma maneira mais fluida, com calçadas bem feitas e rampas para pessoas com deficiência, para que a cidade seja agradável para caminhar. Ao criarmos uma cidade ‘caminhável’, é possível fazer percursos menores de bicicleta ou até mesmo a pé”.

 A tese de Mirian, entretanto, mostra exatamente o contrário. “São calçadas irregulares e esburacadas, muitas vezes com degraus, aclives e declives que privilegiam a entrada suave dos carros nas garagens das casas e comprometem a segurança e liberdade dos pedestres, sobretudos idosos, pessoas com deficiência, gestantes e crianças”, diz o estudo.

 Para Moacyr Corsi Júnior, diminuir a frota de veículos e investir no aumento do transporte público e em estrutura para bicicletas e pedestres é algo que está ligado, inclusive, a melhorias de saúde. “Ao aumentar o número de carros, você está aumentando o número de motores e, conseqüentemente, cresce a poluição. Então, diminuir a frota de carros é uma forma de melhorar a qualidade do ar e também a saúde dos cidadãos”, completa o arquiteto e urbanista.

 

 

 

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